Versão para impressão

Abraão in memoriam: Há o Próprio Carácter do Jornalista

A imagem pode conter: 1 pessoa

Jaime Azulay

Há pouco tempo, à noite, o telefone tocou e um nome conhecido apareceu no visor. Era o Abel Abraão, não cabendo de contente, a comunicar-me da decisão do presidente João Lourenço em dar o seu nome a Mediateca do Bié. Partilhamos efusivamente o acontecimento e ficou a promessa de eu ir ao Kuito conhecer a Mediateca com ele.
Infelizmente isso já não será possível da forma como programamos. O Abel deixou-nos inesperadamente, na manhã de Terça-feira. Disseram que estava a tentar ligar-me desde que acordara e chegou a telefonar ao Africano Neto na Rádio Nacional, a pedir-lhe o meu contacto, uma vez que com o número que ele tinha não conseguia estabelecer ligação.
Se Deus me der forcas e saúde irei brevemente ao Cemitério dos Mártires na cidade do Kuito e depositarei uma coroa de rosas vermelhas no túmulo do meu grande companheiro Abel Abraão. Serão rosas vermelhas do sangue derramado na resistência vitoriosa e espinhos simbolizando o suor e os riscos durante os 18 meses de cerco. Deixarei, descaindo na lápide do tumulo a faixa com as palavras que o presidente Agostinho Neto nos dedicou:
“Há o próprio caracter do jornalista, aquele que com sacrifícios, às vezes da própria vida, permite a comunicação entre os homens”.

Benguela, 26.11.2019