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Dia Internacional da Dança: Conversa com Ana Clara Guerra Marques

A dança é uma das três principais artes cênicas da Antiguidade, ao lado do teatro e da música, e é hoje celebrada internacionalmente. Em Angola, Ana Clara Guerra Marques e a Companhia de Dança Contemporânea são uma referência de destaque que aqui se revelam.

FAAN - A professora Ana Clara Guerra Marques é sem dúvida uma das maiores referências da dança angolana. O que representa para si, a dança?

ACGM - Dançar é uma forma de comunicar. É, como um dia referi, «contar segredos de uma maneira codificada; utilizar o corpo para escrever no espaço, ‘estórias’ sem enredo, mas onde há sempre alguém que se identifica com pelo menos um dos ‘personagens’.»

FAAN - Como surgiu a “Companhia de Dança Contemporânea de Angola”?

ACGM - A CDC surge da necessidade de existir, em Angola, um colectivo que se dedicasse exclusivamente e de forma profissional à criação e divulgação da dança de autor. Nós temos muitos grupos de dança, mas não existe ainda a noção interiorizada do que é uma Companhia profissional constituída por pessoas formada em dança, com uma preparação técnica sólida e permanente e que desenvolvam um trabalho de criação sério, profundo e produto de reflexão e de trabalho de investigação.

Esta ideia surge ainda nos anos 80 mas, apesar da minha insistência, só em 1991 nos foi dada a oportunidade de constituir esse colectivo, a CDC.

FAAN - Quando, onde e por quem foi fundada?

ACGM - A CDC foi fundada por mim em Luanda, no ano de 1991. Os bailarinos integrantes da CDC eram todos alunos da Escola de Dança, instituição que eu dirigi desde 1978 e que nesse ano teve de encerrar dada a falta de condições de trabalho. Portanto, e isto é fundamental ressaltar, a Companhia teve desde o início bailarinos com preparação técnica académica.

FAAN - Quais foram as dificuldades encontradas?

ACGM - Todas. Era difícil as pessoas perceberem a importância de uma actividade completamente nova em Angola, portanto, desconhecida pela maior parte das pessoas. Infelizmente, entre nós, existe a ideia errada de que os angolanos nascem com a dança no sangue, pelo que não precisam de aprender a dançar. Qualquer grupo subia ao palco, mas a CDC teve sempre um trabalho incompreendido. Trabalhar diariamente (aulas, ensaios, laboratório) na preparação de uma peça durante mais de três meses parecia uma coisa bizarra. Neste contexto, dançar e mover o corpo de forma consciente, com propostas estéticas distintas e usando as técnicas académicas universais (clássico, moderno, contemporâneo), nem sempre é fácil de entender.

A nossa actividade sempre foi vista como um trabalho não representante da cultura angolana, justamente, porque não há o conhecimento generalizado de que a dança tem diversas vertentes e que o nosso acervo patrimonial pode aparecer de uma outra forma que o enriquece, até…

FAAN - Quantos bailarinos e professores possui actualmente a companhia?

ACGM - A Companhia possui actualmente dois professores residentes (técnicas da dança clássica e afro-contemporânea e ética), 1 convidado (técnica da dança moderna), 8 bailarinos e um percussionista-bailarino.

É nossa intenção convidar regularmente professores e coreógrafos estrangeiros (o que já aconteceu o ano passado e está já planificado para este ano) para a capacitação dos nossos bailarinos e para que eles possam contactar com o maior número possível de técnicas, linguagens e processos criativos. Só assim um bailarino cresce artística e profissionalmente.

FAAN - Qual a proveniência dos mesmos?

ACGM - Dois dos professores são angolanos e um é estrangeiro. Os bailarinos têm proveniências diversas, sendo três de Cabinda, dois de Malange e os restantes de Luanda. Todos os bailarinos foram e estão a ser formados dentro da CDC.

FAAN - A Companhia de Dança contemporânea de Angola tem as portas abertas para receber todos os interessados pela arte da dança?

ACGM - Infelizmente ainda não… Nos planos da CDC está a abertura de uma oficina de artes para que a sociedade se possa aproximar das artes, particularmente da dança.

Para além desta Oficina a CDC pretende desenvolver trabalho comunitário junto de populações com necessidades especiais, particularmente com portadores de deficiência com vista à sua integração social.

FAAN - Qual é o critério de selecção utilizado pela companhia na avaliação dos novos candidatos?

ACGM - como em qualquer companhia de dança profissional, os candidatos devem possuir uma formação específica em dança e ou experiência profissional comprovada.

No caso de Angola, e porque não existe um sistema de ensino da dança que responda a estas necessidades, os bailarinos são admitidos por apuramento através de rigorosos testes de aptidão física, musical e artística. A sua formação é efectuada na própria Companhia. Para se dançar profissionalmente é importante que o corpo esteja disponível para assimilar tudo o que as técnicas têm para o trabalhar. Sem musicalidade e sem vocação artística também é difícil vir-se a ser um bom bailarino.

FAAN - Quais os principais desafios da companhia?

ACGM - Desenvolver e divulgar a dança contemporânea em Angola. Ensinar que a dança em Angola, à semelhança do que acontece em todo o mundo, deve conhecer outras vertentes e que os profissionais de dança devem ser pessoas especiais, dotadas, preparadas, cultas, capazes de responder a qualquer solicitação técnica e artística que lhes seja feita. A CDC quer muito desenvolver a Dança Inclusiva, que é a utilização de bailarinos com e sem deficiência, passo já dado na sua Temporada de 2009.

FAAN - O que tem sido feito para suprir as necessidades da companhia? Têm conseguido patrocínios e outra espécie de apoio de entidades particulares e do Estado?

ACGM - Temos tentado sensibilizar as pessoas para esta forma que pode ser tão nossa como qualquer outra. Os espectáculos, as intervenções na imprensa são um meio importante para dar a conhecer o nosso trabalho e os nossos objectivos. É fundamental criar um público que se habitue a ver e a gostar. E isso pode acontecer. As pessoas são receptivas. Gostam, de facto, de contrário não teriam enchido a sala do Teatro Nacional durante sete espectáculos consecutivos.

Mas nada acontece sem suporte financeiro; e aí reside o nosso maior problema. Ainda não existe sensibilidade suficiente para que os sectores mais poderosos apoiem um projecto como este e a lei do mecenato é ainda um projecto.
É verdade que a CDC tem amigos que nos apoiam dentro do que lhes é possível para fazer do nosso trabalho uma causa digna. E a eles agradecemos a coragem e esse suporte. Todavia, estes colectivos (e isto acontece em todo o mundo) são sempre suportados por grandes grupos financeiros, pois só as receitas dos espectáculos não são suficientes para manter uma companhia. Em nenhuma parte do mundo, repito.


FAAN - Aonde geralmente a companhia realiza os espectáculos?

ACGM- A CDC é conhecida por ser pioneira em tudo, no que respeita à dança cénica em Angola. Assim, os seus espectáculos tanto acontecem em palcos como em espaços não convencionais (lagos, galerias, jardins, interior de edifícios antigos).

FAAN - Já alguma vez actuaram fora de Angola?

ACGM - Sim

FAAN - Quais são os países por onde a companhia actuou?

ACGM - R.D. Congo, Gabão, Camarões, Cote d’Ivoire, Portugal, Espanha, Polónia, Índia.

FAAN - Há alguma actuação em especial que a tenha marcado? Porquê?

ACGM - Um espectáculo que a CDC fez nos Camarões (em Douala) em que nunca, em Angola, tínhamos sido tão aplaudidos. Foi muito interessante porque percebemos que outros países africanos se identificavam com as nossas propostas estéticas e isso é gratificante quando se trabalha na edificação de novas linguagens para a dança em África.

FAAN - Pela trajectória do nosso país, podemos afirmar que a dança contemporânea é até certo ponto um estilo novo para muitos angolanos. Na sua opinião, os angolanos têm demonstrado interesse pela Dança Contemporânea?

ACGM - A experiência da CDC e a minha experiência pessoal, enquanto professora e coreógrafa, dizemos que sim. Apesar de, na nossa sociedade, não se saber  ainda e com rigor o que é, do ponto de vista estético e técnico, a dança contemporânea, o público têm um visível interesse por este novo género e por espectáculos diferentes e de qualidade.  Por vezes a simples sensibilidade perante a magia de um espectáculo consistente, bem construído e profissional é o suficiente para quem cria. Não podemos exigir muito de um público que não tem o hábito, porque não existe em Angola, de ver espectáculos da chamada dança ‘séria’ (sem conotação depreciativa para as demais opções)

FAAN - Existem várias dificuldades a nível das infra-estruturas do nosso país, a companhia tem realizado espectáculos no interior do Pais? Quais as províncias por onde passou?

ACGM - Ao contrário da maior parte dos colectivos, a CDC acredita que não é a sua internacionalização que a fará melhor e mais reconhecida. Acreditamos e defendemos que, antes de se ir para fora de Angola (o que não deixa de ser importante) é imprescindível que se partilhe o que se faz com outras populações, com outros públicos, com as outras culturas do nosso país.

E importante perceber o que nós pensamos do que fazemos. Sobretudo quando o trabalho criativo é uma devolução, num outro plano, das nossas próprias raízes, como é o caso das criações da CDC.

É claro que não possuímos teatros em Angola (nem em Luanda!!!), mas conhecemos o nosso país e as suas dificuldades, havendo a possibilidade de nos adaptarmos aos espaços sem a perda da qualidade técnica. O problema é sempre o mesmo: apoiar financeiramente uma tournée ou uma actuação de uma companhia de dança como a CDC por Angola.

Infelizmente, e sem autoridade para tal, há quem se permita achar que os públicos nas províncias não vão gostar e preferem apoiar actividades mais exuberantes que consideram mais seguras. É uma questão de coragem, de sensibilidades, mas também de querer apostar ou não na educação do gosto do nosso público.

As poucas vezes em que a CDC se deslocou às províncias (Namibe e Benguela) provaram que as pessoas gostam deste tipo de espectáculos.
Os públicos formam-se com o que se lhes apresenta. Se só lhes dermos um género de espectáculo, conformar-se-á e fará disso o exemplo pois não tem alternativa. Se diversificarmos a oferta, estamos a contribuir para a sua formação e para o seu grau de exigência.

FAAN - Consegue imaginar um futuro promissor para a dança em Angola?

ACGM - Comecei a dirigir a Escola de Dança no ano de 1978. Naquela época acreditava que a Escola poderia vingar e assegurar a qualidade da dança em Angola. Passou tanto tempo… e a qualidade do actual ensino da dança foi diminuindo. O sistema é tão frágil que não é capaz de formar professores e bailarinos competentes. O que eu quero dizer é que, sem um sistema de ensino artístico poderoso e de qualidade, o futuro da dança estará sempre comprometido. Não se formam profissionais e, portanto, não se reproduzem professores, bailarinos, não se formam investigadores que salvem as nossas danças patrimoniais e que as estudem para serem integradas no sistema de ensino e elas morrem.

O Ministério da Cultura está preocupado e está a fazer todos os esforços para inverter este quadro. Mas a formação de um bailarino e de um professor de dança é longa. O corpo tem o seu tempo e é esse tempo que temos de esperar. Às vezes oito anos. Mais oito…

FAAN - Uma mensagem para os angolanos neste dia Internacional da Dança?


ACGM - Permito-me transcrever um extracto da Mensagem da CDC alusiva a este dia: “A CDC encoraja ainda a que se desista de olhar para a dança apenas como uma actividade recreativa e de lazer, mas que ela seja pensada também como um produto intelectual de investigação e criação (dança cénica), como uma forma de integração (dança inclusiva), como uma forma terapêutica (dançaterapia), como uma forma de educação (dança criativa) entre tantas outras vertentes.
Todos podemos e devemos dançar mas, sobretudo, todos temos o direito a ver, a sentir, a reflectir, a partilhar ou, simplesmente, a fruir da diversidade de discursos com que a dança nos continua a desafiar.

Luanda, 29 de Abril de 2010