Bem-vindo à FAAN

Seja bem-vindo ao portal da Fundação Dr. António Agostinho Neto, nosso objectivo é promover a pesquisa e divulgação da vida e da obra do Dr. António Agostinho Neto; Promover actividades para melhorar o bem-estar e a condição dos angolanos; A promoção da educação, da ciência, da tecnologia e da cultura, para incentivar a criação e a inovação, de todo o tipo e sob todas as formas, e a investigação científica e tecnológica.

Versão para impressão
PDF

A nossa memória tem futuro

0-601.png - 263.82 Kb

Comunicação ao II Colóquio Internacional sobre a História do MPLA

Excelências

Caros Conferencistas, Camaradas

Um Povo sem memória tem o futuro de uma borboleta em dia de chuva. Começa por perder a cor e as asas do presente, para sucumbir antes do alvorecer do futuro. Quero saudar os organizadores deste Colóquio Internacional, por terem incluído no programa um espaço para Depoimentos. É o reconhecimento de que a nossa memória tem futuro e é essencial à construção de um presente de liberdade, paz e abundância, como sonhou Agostinho Neto e seus camaradas de luta. Sob a sua liderança, os melhores filhos do Povo Angolano lutaram até à morte, para que a Pátria Angolana fosse livre e independente. E sobretudo para que o Povo Angolano tivesse um presente de felicidade e o futuro dos vindouros estivesse garantido.

As minhas memórias estão intimamente ligadas à vida e obra de Agostinho Neto. Espero que ninguém me leve a mal por isso. Angola só é um país livre e independente porque ele começou a liderar o MPLA num momento em que as dissidências internas tinham paralisado a Luta Armada de Libertação Nacional. Entre a direcção do movimento havia quem defendesse o fim das actividades guerrilheiras e a integração dos militantes na UPA/FNLA que, na época, com o apoio de Mobutu, acabara de proclamar o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE).

A nossa fuga de Portugal foi dolorosa. Corremos o risco de naufragar porque apanhámos uma violenta tempestade no Mediterrâneo. Levávamos connosco o Mário Jorge e a Irene, ainda bebés. Mas chegámos vivos a uma praia de Marrocos onde desembarcámos. Depois fomos levados para Rabat.
Nessa época, Mário Pinto de Andrade era o presidente do MPLA e Agostinho Neto o presidente de honra. Na primeira reunião Mário Pinto de Andrade disse muito entusiasmado:
- Tu és o homem que conhece a realidade do interior, foste preso em Luanda, és o nosso presidente de honra e, por isso, a partir de agora a liderança do MPLA é tua. Tens todo o meu apoio e garanto que os outros camaradas da direcção estão de acordo com esta minha decisão.

Agostinho Neto respondeu de imediato:
- Isso não aceito. Vamos para Léopoldville onde estão os outros camaradas do Comité Director do MPLA e fazemos eleições internas. Assumo a disponibilidade para liderar uma lista apoiada pelo presidente em funções. Mas temos de saber se há camaradas que queiram apresentar outras listas e apoiar outros candidatos. Essa é a condição que ponho para aceitar o convite que me estás a fazer.
A vitória eleitoral de Agostinho Neto sobre o candidato Viriato da Cruz e seu grupo de maoístas teve como consequência a expulsão do MPLA de Kinshasa. Mobutu dizia que “monsieur” Neto era comunista, ainda mais perigoso do que Lumumba.

Agostinho Neto e um punhado de jovens militantes atravessou o rio Zaire de Kinshasa para Brazzaville e na capital da República Popular do Congo refundou o MPLA, apelou a todos os angolanos nacionalistas que se juntassem ao movimento para reforçarem a Luta Armada de Libertação. Foi criada a Frente Norte com duas regiões político-militares, uma em Cabinda e outra no resto do território, até Luanda. Foi assim que a II Região se tornou num laboratório de quadros e a I Região, com o epicentro nos Dembos, foi o território de concentração de combatentes.

Em Brazzaville foi aberto o bureau do MPLA. Agostinho Neto trabalhava lá de manhã à noite. Mas poucos o acompanhavam. Apenas um punhado de jovens onde se destacavam Iko Carreira e José de Carvalho, o lendário comandante Henda. Gentil Viana um dia apareceu em Brazzaville oferecendo os seus préstimos. Esteve uma tarde no bureau e foi embora!
Agostinho Neto visitava frequentemente as bases da guerrilha. Mostrava aos combatentes que o líder estava presente, vivia com eles as mesmas dificuldades, os mesmos dramas, os mesmos perigos. Finalmente o MPLA tinha um líder que não se refugiava nas torres de marfim e lá do alto comandava as forças guerrilheiras. Neto era o primeiro militante, o primeiro combatente, o primeiro comandante.

Agostinho Neto era um político clarividente. Tinha a capacidade de prever os acontecimentos, o que lhe permitia encontrar soluções para os problemas que ainda não tinham chegado. De imediato percebeu que a guerrilha no Norte teria sempre a oposição da FNLA de Holden Roberto e do presidente do Zaire, Mobutu. Por isso decidiu abrir a Frente Leste. Para isso foi aberta a chamada Rota Agostinho Neto, uma saga heróica que faz parte das mais extraordinárias páginas da nossa História. A nossa memória é rica e tem futuro.
Em Dar-es-Salaam vivíamos em pequenas moradias na zona de Kurasini. Um pouco mais longe, tínhamos a Casa Grande, uma antiga clínica, que alugámos quando foi criada a Rota Agostinho Neto. Era lá que ficavam alojados os nossos militantes que iam fazer treino militar, vinham repousar algum tempo ou tratar problemas de saúde. As condições, em comparação com as de Brazzaville, eram muito boas. Trabalhámos incansavelmente. A OMA ganhou uma expressão nunca vista.

O Comité de Libertação da OUA estava sediado em Dar-es-Salaam e essa circunstância facilitava o trabalho da direcção do MPLA. Agostinho Neto desdobrava-se em contactos. Ele sabia que a luta armada tinha de ser ganha também nas chancelarias e nas grandes organizações internacionais, sobretudo na ONU.
Agostinho Neto trabalhava muito, estava sempre em contactos com diplomatas africanos que apoiavam a luta dos angolanos. As suas visitas constantes à Frente Leste, à II Região, em Cabinda, e as viagens a países amigos para garantir apoios, exigiam a presença de dirigentes empenhados com capacidade de responder a todos os desafios que se colocavam no dia-a-dia da guerrilha. Muito cedo deu visibilidade mediática à luta armada.
Mobilizou grandes jornalistas que divulgaram a luta nos Media internacionais.

No auge da actividade de Agostinho Neto em Dar-es-Salaam, foi criado no seio do movimento um ambiente que quase destruiu o MPLA e pôs em causa todas as conquistas alcançadas. Os que ajudavam o líder convenceram-se que podiam tomar o lugar dele. Que era fácil dirigir a luta. As traições sucederam-se até à Revolta do Leste, no início dos anos 70, dirigida por Daniel Chipenda, antigo futebolista da Associação Académica de Coimbra, que Neto guindou até à direcção do movimento.

Esse mal trouxe um bem: Agostinho Neto percebeu quem internamente era de confiança. E que apoios externos tinha. Houve quem apoiasse Chipenda, como o Presidente Kaunda, da Zâmbia. Na luta revolucionária é bom separar as águas. Agostinho Neto era um homem do Movimento dos Não Alinhados. O MPLA não era um satélite de quem quer que seja. E o seu líder muito menos. Defendia uma Angola independente bem relacionada com todos os países do mundo, inclusive os Estados Unidos da América. A memória destes factos dá mais força ao nosso futuro.

O Movimento das Forças Armadas no dia 25 de Abril de 1974 desencadeou em Portugal uma acção militar contra o regime colonial fascista e este desmoronou-se fragorosamente. Agostinho Neto era capaz de antecipar os acontecimentos políticos. Por isso, no dia 1 de Janeiro de 1967, na sua mensagem de Ano Novo ao Povo Angolano, o líder começou a desenhar o trajecto que iria desaguar no dia 25 de Abril. Disse Neto:
“Em Portugal, aumenta o movimento de deserções dos soldados. Muitíssimos jovens preferem fugir do país ou correr o risco da prisão a participarem neste crime que é a guerra colonial.

O MPLA inclina-se perante estes heroicos e generosos combatentes, muitos dos quais se tornaram imortais pelo sangue que derramaram nos campos. A guerra de libertação nacional que o MPLA começou a dirigir com firmeza, exige orientação, clareza de objectivos, política de acção e honestidade. A luta não poderá desenvolver-se com incitamentos ao tribalismo, à divisão, com apelos à superstição e aos instintos primários e sem claros objectivos políticos.

Em Angola vive-se um clima de mobilização geral. Os colonos estão armados e organizados em milícias, como em 1961. O período de prestação de serviço militar foi prolongado para quatro anos e o orçamento português prevê 42 por cento do seu total para as despesas com a guerra colonial: mais de 6.000 milhões de escudos!
O inimigo procura também desmobilizar o Povo com a corrupção e com algumas concessões às reivindicações do nosso Povo. Sem dúvida que a alguns sectores da nossa população foram concedidas melhores condições de vida, mas não se modificou certamente a base material em que vive a grande maioria.” [1]

Agostinho Neto também já estava a prever, cinco anos antes, o surgimento da Revolta de Chipenda, liderada por Daniel Chipenda, dirigente do MPLA na Frente Leste. Os dissidentes queriam depor o líder do movimento, invocando argumentos tribais e raciais. Recordo aqui, em resumo, o que foi esse crime contra o Povo Angolano.
Daniel Chipenda assumiu a liderança do movimento fraccionista, no início dos anos 70. Tinha nascido a chamada Revolta de Chipenda com o fim único de afastar Agostinho Neto e colocar na direcção do MPLA militantes de origem ovimbundu. Neto desde a primeira hora da sua liderança, lutou contra o racismo e o tribalismo. Dez anos depois de conduzir a luta armada de libertação nacional viu-se confrontado com uma situação terrível de tribalismo na direcção da Frente Leste.

Os militantes do MPLA iniciavam o dia lançando palavras de ordem contra o racismo, o tribalismo, o regionalismo. Esse era o combate das nossas vidas. Ele sabia que o racismo e o tribalismo eram cancros sociais muito difíceis de extirpar, sobretudo quando ao mesmo tempo os nossos combatentes lutavam no terreno contra as tropas portuguesas e seus aliados. Os aviões da Força Aérea Portuguesa bombardeavam aldeias, morriam dezenas de pessoas. Lançavam bombas de napalm e desfolhantes, destruíam as lavras das populações. Quem queria pescar nas águas turvas, facilmente conseguia apoios, com discursos racistas. O colonialismo criou graves distorções no tecido social. A maioria negra nunca teve acesso à educação. Brancos e mestiços, porque pertenciam à classe dominante, frequentavam as escolas e no final do ensino médio, aqueles cujos pais tinham capacidade económica, iam para Portugal estudar nas Universidades. Até 1962, não existia Universidade em Angola. Os angolanos com estudos secundários e universitários que aderiram à guerrilha, tinham todas as condições para serem comandantes e dirigentes. Chipenda e os seus apoiantes facilmente voltaram os combatentes contra os que estavam no comando e dirigiam as acções políticas e militares do movimento, mestiços ou brancos. Diziam eles:

- O Neto só tem mulatos na direcção. Os comandantes são todos mestiços ou negros fora da nossa região! Não podemos aceitar.
A verdade é que as províncias do interior nem escolas primárias tinham, os que nessas regiões aderiam ao MPLA, nunca tiveram a oportunidade de estudar, não tinham onde. Mas ninguém explicava as causas, apenas exploravam as consequências das distorções da sociedade colonial. Chipenda fez muito mal à luta de libertação nacional e ao Povo Angolano.

As consequências da dissidência de Chipenda foram graves. O Kremlin aproveitou a oportunidades desta dissidência, para se afastar de Agostinho Neto, que nunca aceitou ser agente de quem quer que fosse. O líder, desde que assumiu a direcção da luta, defendeu sempre os valores do Movimento dos Não Alinhados e boas relações com todos os países do mundo, inclusive os EUA. O apoio a Chipenda revelou que Agostinho Neto estava a pagar a ousadia de privilegiar os contactos diplomáticos com países ocidentais e fora de certos blocos.
Este poema de Agostinho Neto, escrito 20 anos antes destes acontecimentos, é uma memória com futuro:

Não me exijas glórias
que sou eu o soldado desconhecido
da Humanidade

As honras cabem aos generais

A minha glória
é tudo o que padeço
e que sofri
Os meus sorrisos
tudo o que chorei

Nem sorrisos nem glória

Apenas um rosto duro
de quem constrói a estrada
por que há-de caminhar
pedra após pedra
em terreno difícil[2]

Agostinho Neto, em Fevereiro de 1974, fez um discurso na Universidade de Dar-Es-Salam, intitulado Quem É o Inimigo? Qual É o Objectivo? Perante estudantes, políticos e diplomatas, ele anunciou o 25 de Abril, ainda que nada soubesse nem tivesse qualquer contacto com os militares revolucionários de Lisboa. Mais uma vez, a clarividência. A sua espantosa capacidade de prever os acontecimentos. E definiu quem devia ser combatido no novo cenário político que se aproximava. Mais uma vez a clarividência do líder traçava a estratégia política para os tempos que iriamos viver em Angola depois da Revolução do Cravos, em Lisboa.

Neto apontou, em Dar-es-Salaam, a base ideológica do futuro próximo:

“O desejo comum do Homem é ser livre, desligar-se das amarras de uma sociedade em que estiola e morre. Não pode haver outra tendência sobre a Terra. O isolamento é impossível e é contrário à ideia de progresso técnico, cultural e político.
Para sustentar a liberdade, o Homem tem de combater todas as formas de discriminação para que não haja uma simples inversão dos factores intervenientes.”[3]

O inimigo de sempre foi o regime colonialista e as potências imperialistas que o apoiavam. O objectivo do MPLA após a Revolução dos Cravos era garantir a liberdade dos angolanos. E fazer tudo para que não acontecesse em Angola, o mesmo que sucedeu em quase todos os países africanos que ascenderam à Independência nos anos 50 e 60: um novo hino, uma nova bandeira, mas a mesma situação de dominação e discriminação ainda que os actores no poder fossem diferentes ou apenas tivessem cor diferente da pele.

Agostinho Neto começou a tomar medidas, ao nível da direcção do MPLA, para enfrentar os novos desafios. A sua capacidade de liderança foi responsável pelas retumbantes vitórias do movimento, desde o início da Luta Armada de Libertação. Mais uma vez trago à vossa presença um poema seu, com mais de 70 anos. Uma memória poética com futuro:

“Eu já não espero/ sou aquele por quem se espera/ sou eu minha Mãe/ a esperança somos nós/ os teus filhos/partidos para uma fé que alimenta a vida”[4]

Agostinho Neto estava a enfrentar a Revolta Activa e a mobilizar os militantes para os desafios que se aproximavam quando chegou a notícia da queda do regime colonialista de Lisboa já a direcção do MPLA, sob a sua liderança clarividente, tinha um programa para garantir apoios internos e externos, de forma a minimizar os estragos da dissidência de Chipenda. Mas uma nova surpresa esperava os responsáveis do movimento.

Militantes com visibilidade internacional proclamaram a Revolta Activa. Diziam-se intelectuais, mas apenas tinham um programa político: afastar o líder. Nesse aspecto, Mário e Joaquim Pinto de Andrade, Gentil Viana e outros antigos dirigentes não eram diferentes de Chipenda.

Agostinho Neto mais de meio século antes, sabia que vinha aí o dilúvio político com que o inimigo iria afogar as garantias de liberdade inscritas no manifesto do Movimento das Forças Armadas em Lisboa. O inimigo estava à mostra, em retrato de corpo inteiro. O objectivo era impedir a Independência de Angola. Num cenário de divisionismo que assumia a forma de traição, era quase impossível triunfar. Estes poemas de Neto, são uma memória que faz falta à construção do nosso futuro:

“Esgotaram-se os sorrisos/com que chorava/
eu já não choro./

E aí vão as minhas esperanças/como foi o sangue dos meus filhos/amassado no pó/ das estradas/enterrado nas roças/e o meu suor/embebido nos fios de algodão/que me cobrem./[5]

Vendido/e transportado nas galeras/vergastado pelos homens/linchado nas grandes cidades/esbulhado até ao último tostão/ humilhado até ao pó/sempre sempre vencido.”[6]

Os líderes dos três movimentos de libertação, Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi, negociaram com Portugal os termos da Independência Nacional, consignados no Acordo de Alvor. É bom que todos os angolanos conheçam o conteúdo deste documento histórico. Para desmascarar todas as falsificações que têm sido feitas. E para memória futura. Porque a nossa memória colectiva tem muito valor. Pedi para que também fosse distribuído esse documento.

Agostinho Neto fez questão de me levar ao Algarve com as meninas, Irene e Leda. O Mário Jorge estava na Roménia a estudar, não pôde ir connosco. Estávamos a viver momentos de felicidade e euforia. Quando ao fim da tarde terminavam as negociações o meu marido juntava-se a nós, mas não proferia uma palavra sobre o que estava a acontecer. Apenas dizia que o ambiente era de amizade, muito fraterno e de grande esperança. Eu dizia-lhe para desconfiar de tanta amizade e ele sorria. Ninguém estava a enganá-lo.

Após a assinatura do Acordo de Alvor, o discurso oficial em nome dos três movimentos de libertação foi feito por Agostinho Neto, a convite de Holden e Savimbi. Durante as negociações, no final dos trabalhos, sentava-se na mesinha que existia na nossa suite do Hotel da Penina e ia escrevendo o texto. Depois submeteu-o à apreciação dos outros líderes, que lhe manifestaram o seu acordo, sem emendas. Tenho esse documento. E todos devem guardá-lo na memória. Porque tem muito valor.

As “revoltas” ensombraram a festa do 25 de Abril. Nas cidades, vilas e aldeias de Angola, os angolanos sentiram na pele o medo do futuro. Os Capitães de Abril entregaram o novo poder a uma Junta de Salvação Nacional onde tinha assento o general António de Spínola, chefe de fila de uma corrente neocolonialista dentro do movimento revolucionário português.

Em Angola ganhou força inusitada uma facção que defendia a independência branca. Venâncio Guimarães Sobrinho, o dono do sul de Angola, e Fernandes Vieira, presidente da poderosa Associação Comercial de Luanda, com o apoio do novo governador-geral, Silvino Silvério Marques, puseram em marcha acções políticas, sociais, económicas e militares que conduzissem à independência unilateral, a exemplo do que aconteceu na Rodésia de Ian Smith. O MPLA estava a ser esmagado por poderosos blocos tribalistas e racistas. Neto encontrou a saída e os inimigos foram esmagados. Mais um triunfo retumbante.

Agentes da Polícia de Segurança Pública, antigos membros da PIDE, a polícia política do regime, taxistas, militares das tropas especiais e membros das milícias (Organização Provincial de Voluntários para a Defesa Civil de Angola) criaram esquadrões da morte nas principais cidades angolanas, sobretudo em Luanda. O terror andava à solta. Os militantes e simpatizantes do MPLA não sabiam que fazer face a um movimento que de repente apareceu com três presidentes: Daniel Chipenda, Joaquim Pinto de Andrade e Agostinho Neto, o único que sempre esteve na sua liderança, sem virar as costas à luta.

Militantes que estiveram presos no Tarrafal e em São Nicolau contactaram Agostinho Neto e do líder receberam uma mensagem de esperança: temos de nos unir à volta do Povo Angolano, agora que a Independência Nacional está a um golpe de asa.

Hermínio Escórcio, Manuel Pedro Pacavira e Aristides Van-Dúnem decidiram então refundar o MPLA no interior. E por toda a Angola ecoou uma mensagem: MPLA é Agostinho Neto. Neto é o nosso Presidente.

Luanda e as grandes cidades de Angola estavam a ferro e fogo. Os esquadrões da morte atacavam os habitantes dos bairros. Militantes do MPLA unificado enfrentaram os assassinos, com armas recuperadas dos paióis das tropas portuguesas. A situação era dramática e os que defendiam uma independência à semelhança do regime de apartheid de Pretória estavam prestes a conseguir os seus objectivos.

Num esforço final, a direcção do MPLA no interior decidiu apelar ao patriotismo dos jovens angolanos que serviam as forças armadas portuguesas. Milhares angolanos todos os anos eram recrutados para a guerra colonial. Os soldados recebiam instrução militar nos regimentos do Uíje, Luanda, Huambo, Cuito e Lubango. Os sargentos milicianos em Luanda, Huambo e Cuito. Os oficiais eram formados na Escola Militar do Huambo. O primeiro curso foi no Cuito.

Em 1974, existiam nas fileiras milhares de soldados, sargentos e oficiais recrutados e treinados na colónia. Muitos fizeram a especialidade de Comandos. Face aos assassinatos diários nos musseques, estes jovens fizeram uma manifestação em Luanda. Marcharam em direcção à Fortaleza de São Miguel, sede do Comando das Forças Armadas Portuguesas. Entregaram as fardas e guardaram as armas. Juraram perante o MPLA, vanguarda revolucionária do Povo Angolano, defender as populações vítimas das acções dos esquadrões da morte.

Tudo mudou. Os esquadrões da morte encontraram resistência armada nos bairros. Luanda e outras grandes cidades estavam mergulhadas numa guerra urbana. O general Spínola foi obrigado a demitir o governador Silvino Silvério Marques e o Movimento das Forças Armadas enviou pata Angola, não como governador, mas como alto-comissário, o almirante Rosa Coutinho, também membro da Junta de Salvação Nacional.
O alto-comissário desmantelou os esquadrões da morte, expulsou os altos dirigentes dos grupos que defendiam a independência branca e estabeleceu contactos com a direcção do MPLA, através de Manuel Pedro Pacavira e Hermínio Escórcio.

Em plenas operações de limpeza dos esquadrões da morte, mercenários franceses, elementos do ELNA, braço armado da FNLA, e homens armados da FLEC, organização independentista de Cabinda, atacaram e ocuparam o posto fronteiriço de Massabi. E ameaçavam marchar sobre a capital da província.

Rosa Coutinho comandou pessoalmente as tropas que foram libertar Massabi. De regresso a Luanda, o alto-comissário pediu a presença urgente, em Luanda, de Agostinho Neto e toda a direcção do MPLA. Manuel Pedro Pacavira expôs a situação interna ao líder do movimento. Neto prontificou-se a avançar imediatamente para Luanda. Mas os seus camaradas da direcção opuseram-se, alegando que não existiam na capital, condições de segurança.

No interior, os angolanos que abandonaram as tropas portuguesas garantiam a paz e a segurança nos centros urbanos. Mas no interior e particularmente nas regiões fronteiriças do Norte e Nordeste, tropas estrangeiras, sob o biombo da FNLA, invadiam silenciosamente Angola.

Só em 4 de Fevereiro de 1975 Agostinho Neto regressou a Luanda e passou a dirigir pessoalmente a luta interna. Encontrou grande instabilidade política na capital e um quadro em que as províncias do Uíje e Zaire estavam praticamente ocupadas pelas forças de Mobutu. O quadro era muito desfavorável.

Antes de se instalar em Luanda, Agostinho Neto, na presença de Lúcio Lara, Iko Carreira, Pedro Maria Tonha “Pedalé”, Joaquim Kapangu, Jacob Caetano “Monstro Imortal”, Zacarias Pinto “Bolingô” e Manuel Pedro Pacavira, em nome do MPLA, assinou um acordo de cessar-fogo com as tropas portuguesas, no Leste de Angola. Foi no mês de Outubro de 1974. Pela parte portuguesa estava o general Macedo, comandante em chefe das forças de ocupação, e os líderes do MFA em Angola: majores Pezarat Correia e José Emílio da Silva.

Manuel Pedro Pacavira no seu livro Angola e o Movimento Revolucionário dos Capitães de Abril em Portugal conta com todos os pormenores esses acontecimentos. Mais memórias que têm futuro.

Em 19 de Dezembro de 1974, no Luena, Agostinho Neto e Lúcio Lara assinaram um acordo de cooperação com a UNITA, representada por Jonas Savimbi e Nzau Puna.

O almirante Rosa Coutinho foi o facilitador deste encontro que permitiu, logo a seguir, que a Organização de Unidade Africana, hoje UA, reconhecesse a UNITA como um movimento de libertação. Antes era considerada como um grupo armado ao serviço do colonialismo. Alguns dias depois, Neto, Holden e Savimbi foram para Mombaça no Quénia, onde assinaram um acordo que permitiu aos três movimentos de libertação uma posição comum para a Cimeira do Algarve com a potência colonial, no início de Janeiro de 1975.

Em Mombaça, Holden e Savimbi continuavam a agir como se continuasse de pé o projecto político desenhado secretamente na Ilha do Sal, por Nixon, Spínola e Mobutu. Depois das reuniões oficiais, de manhã, na “State House”, as delegações da FNLA e da UNITA reuniam à tarde num hotel da ilha de Mombaça e concertavam posições para no dia seguinte imporem ao MPLA.

Versos de Neto, escritos mais de 60 anos antes destes acontecimentos não deixam dúvidas quanto à sua clarividência: quem esforçou não perdeu/mas ainda não ganhou. Porquê? Ele responde com a arma da poesia: Lento caricato e cruel/o comboio africano…[7]

Logo a seguir à assinatura do cessar fogo no Leste de Angola, o alto-comissário Rosa Coutinho convidou o MPLA, a FNLA e a UNITA a abrirem delegações oficiais em Luanda e nos principais centros urbanos. Agostinho Neto incumbiu Lúcio Lara de chefiar a primeira delegação oficial que desembarcou em Luanda. O tempo de paz começou com um atentado. Os activistas do MPLA organizaram um comício de boas-vindas aos membros da delegação, no Bairro Popular.

A CIA recrutou um grupo de sabotagem, integrado por agentes da polícia portuguesa, que tentou matar Lúcio Lara e os outros dirigentes que o acompanharam. Foi o primeiro aviso de que o movimento liderado por Agostinho Neto ia ter uma vida muito difícil. Três meses antes, na Ilha do Sal, o então presidente da República Portuguesa, António de Spínola, o presidente do Zaire, Mobutu Sesse Seko e o presidente dos EUA, Richard Nixon, decidiram que o poder em Angola ia ser entregue à FNLA, em parceria com Savimbi. Nada de eleições nem negociações. A vontade popular não contava. O MPLA foi excluído. Agostinho Neto estava a enfrentar mais um desafio gigantesco, agora no Portugal democrático.

As principais estruturas do MPLA ficaram instaladas em vivendas na Vila Alice. E foram abertos comités de acção em todos os bairros de todas as vilas e cidades. Os activistas tinham uma orientação: quem entrar nas instalações do movimento e apresentar um problema, quando sair, esse problema tem que estar resolvido. Se não for possível encontrar uma solução naquela estrutura, recorre-se a outras estruturas que tenham essa capacidade. Mas ninguém ficará com o seu problema por resolver, seja ou não do MPLA. Mais tarde, Agostinho Neto alargou esta filosofia a todas as estruturas do movimento e do Estado: A solução dos problemas do Povo tem de estar sempre em primeiro lugar!

A nossa memória tem futuro. A poesia de Neto é a música celestial dos sonhos que vão acontecer, se é que não aconteceram já:

As sombras/que se esvaíram no tempo/deixaram-me/esta ânsia/e o eco múltiplo/do tilintar das suas cadeias;/ às que hão-de vir/mostrarei essas cadeias quebradas/e com elas repartirei/o meu desejo de ser onda/neste desfile dos tristes/que se perdem[8].

Na Cimeira do Algarve, que decorreu na praia do Alvor no início de Janeiro de 1975, foi assinado um acordo entre os três movimentos de libertação e a potência colonial, onde foram definidos todos os passos até à Independência Nacional. Entre eles, estava a preparação de eleições até 11 de Novembro. Também ficaram acordados os moldes do Governo de Transição e das forças armadas conjuntas. Muito importante: a parte portuguesa tinha a responsabilidade de garantir a integridade territorial e a ordem pública.

Agostinho Neto proferiu um importante discurso, na sessão de assinatura do Acordo de Alvor, em nome dos três movimentos de libertação. A memória das suas palavras dá valor ao nosso futuro. Cito estas palavras porque mostram com clareza a sua capacidade excepcional de prever os acontecimentos:

“E eis que hoje, substituído o gatilho pelo diálogo, reconhecido o direito de ambos os Povos à independência e à liberdade, os abraços e a confraternização substituem subitamente as confrontações violentas. Uns e outros, somos dignos deste momento. O Movimento de Libertação Nacional e o Movimento Antifascista Português, que permitiram o 25 de Abril, contribuíram magnificamente para a construção de um novo clima político. E não só isso. Contribuíram para uma radical transformação em África e para um novo equilíbrio no Mundo.”[9]

Neto, mais de uma década antes, previu a Batalha do Cuito Canavale e a queda do regime de apartheid na África do Sul. O nosso líder sabia que a luta dos angolanos pela integridade territorial e a soberania nacional ia mudar África e o Mundo. Foi ele que lançou a primeira pedra nesses alicerces que a ferro e fogo suportaram o edifício da liberdade em Angola, na Namíbia, no Zimbabwe e na África do Sul. O líder do MPLA, o poeta Agostinho Neto, pôs pedras nos alicerces do mundo que sustentam a Liberdade.

O Governo de Transição tomou posse no final de Janeiro de 1975. As autoridades portuguesas permitiram que dezenas de soldados zairenses, armados até aos dentes, marchassem em frente ao Palácio da Cidade Alta. Lá dentro, no salão nobre, ia tomar posse um executivo com ministros e secretários de Estado indicados pelos três movimentos. E também um Colégio Presidencial constituído pelo alto comissário português, general Silva Cardoso, por Lopo do Nascimento, do MPLA, Johnny Pinnock Eduardo, da FNLA e José Ndele, da UNITA. Um dos convidados era o general Nataniel Mbumba, líder dos catangueses insurgentes, que viviam no Leste de Angola desde 1963, quando Moisés Tchombé foi derrotado por Mobutu.

Os militares zairenses, ajudados por elementos da FNLA, prenderam o general catanguês. Um repórter assistiu à operação e deu a notícia no jornal português “Diário de Notícias”. O general Heitor Almendra, comandante operacional das tropas portuguesas no período de transição, cercou a delegação central da FNLA e resgatou o prisioneiro. Estava dado o sinal para a Guerra de Luanda que paralisou a capital e custou milhares de vidas.

Agostinho Neto chegou apenas três dias depois da tomada de posse do Governo de Transição. Um mar de angolanos esperava-o. Luanda inteira estava na rua. Das outras províncias vieram muitos milhares de pessoas. Os mentores da independência branca perceberam que tinham de agir imediatamente. Seguiu-se o terror. Esquadrões da Morte, agora sob a capa da FNLA, atacavam todos os cidadãos que não tivessem um cartão do movimento.

As sedes do movimento de Holden Roberto eram centros de tortura e prisões tenebrosas. Daniel Chipenda abriu uma delegação ao lado da sede central da FNLA e declarou nulo o Acordo de Alvor afirmando que era o legítimo presidente do MPLA, eleito no fracassado congresso de Lusaka. Os tiroteios nas ruas de Luanda eram cada vez mais mortíferos. E começou a debandada dos portugueses, mas também dos quadros angolanos. Em breve, tudo estava paralisado.

Na fase mais complicada das confrontações armadas nas ruas da capital, forças da FNLA atacaram a nossa casa no Bairro de Saneamento, que nos foi atribuída pelo alto-comissário, general Silva Cardoso. Naquele bairro do Estado estavam reservadas casas para Savimbi e Holden. Mas nunca as ocuparam.

Naquela casa fomos submetidos a um tiroteio terrível. Tropas zairenses integradas no ELNA, braço armado da FNLA, quiseram matar-nos. Os nossos guardas reagiram com enorme coragem, mas ali ao lado, no Palácio da Cidade Alta, estava muita tropa portuguesa que tinha o dever de intervir, porque lhe competia garantir a nossa segurança, a lei e a ordem. Mas ninguém reagiu ao tiroteio contra a nossa casa.

Os atacantes não esperavam a reacção armada e acabaram por retirar. Toda a gente sabia que o alto-comissário português estava do lado dos que queriam acabar com o Governo de Transição e fechou os olhos à ocupação militar, por forças estrangeiras, das regiões fronteiriças e de todo o Norte de Angola. As forças portuguesas abandonavam os seus quartéis no interior do país e vinham para Luanda.

Depois do ataque à nossa casa, decidimos procurar um lugar mais seguro para as nossas filhas, Irene e Leda, mas também para a Avó Maria. A minha sogra ficou sempre a viver connosco, desde que regressámos a Angola. Nós fomos para a SAPU onde foi oferecida uma casa a Agostinho Neto. Só mais tarde fomos para o Futungo de Belas. O partido comprou a casa do médico dentista Zeferino Cruz e ali ficámos alojados até à morte do meu marido.

Agostinho Neto exigiu do alto-comissário medidas concretas para travar a Guerra de Luanda e as invasões silenciosas que continuavam no Norte e agora também no Sul de Angola, por parte das forças de defesa e segurança da África do Sul e os mercenários do Exército de Libertação de Portugal (ELP), acobertados pela UNITA. Savimbi entrou em Angola pela fronteira de Santa Clara com os invasores. Aos microfones do Rádio Clube da Huíla disse que tinha um exército para libertar Angola do comunismo. Mas os seus homens de confiança estavam no Governo de Transição.

Em Maio, Agostinho Neto, sem espaço nos Media angolanos, todos propriedade dos defensores da independência branca, deu uma entrevista ao jornal português “Diário de Notícias”, na época o de maior tiragem em Portugal e um dos maiores na Europa.

As suas declarações de ontem, dão valor ao nosso futuro se fizerem parte da nossa memória colectiva:

“Já me referi diversas vezes à passividade com que a parte portuguesa tem assistido aos conflitos que são desencadeados em Luanda e de uma maneira geral em toda Angola. Esta política, a que chamam neutral, que se pretende isenta e a que chamam também uma política de imparcialidade perante os movimentos de libertação, é uma atitude que do ponto de vista do MPLA só pode prejudicar, não só Angola, mas também Portugal. Porque é muito fácil reduzir os conflitos que têm acontecido em Angola, como sendo conflitos entre movimentos de libertação. Não é bem assim, o que se passa é que há forças externas que desejam a recolonização de Angola. Essas forças querem manter sob o seu controlo as riquezas do país e querem manter o domínio sobre o nosso povo. Não desejam que o processo de descolonização vá até ao fim e que Angola seja completamente independente. Face a estes factos, não podemos ter senão uma atitude, a de combater contra essas forças.”[10]

Agostinho Neto exigiu à parte portuguesa que mandasse encerrar a delegação de Daniel Chipenda em Luanda, porque significava um grave atropelo ao espírito e à letra do Acordo de Alvor. Não foi ouvido. A FNLA emitiu um comunicado onde ameaçou retaliar se houvesse alguma acção contra o “irmão” Chipenda. Os portugueses fingiram que o problema não era deles. O líder deu então ordens ao comando das FAPLA para actuar. Um grupo atacou as instalações e acabou com a delegação. A FNLA não cumpriu as ameaças, mas na operação tivemos a primeira grande perda depois do acordo de cessar-fogo. O comandante Valódia morreu durante os combates.
Neto, depois desse acontecimento fez uma declaração que dá sentido ao nosso presente e reforça as esperanças no futuro:

“O problema de Angola, o problema angolano, só será resolvido quando nós encontrarmos uma unidade perfeita entre todos aqueles que compreendem o objectivo da nossa acção, todos aqueles que aderem à causa da independência do país, para que possamos fazer face, em comum, aos ataques das forças imperialistas que têm os seus apetites em Angola.”

O Governo de Transição estava paralisado, sobretudo no que era essencial, a organização das eleições. Tal como foi decidido por Nixon, Spínola e Mobutu na Ilha do Sal, Angola não ia ter eleições e o poder iria ser partilhado entre a FNLA e a UNITA, numa política de balcanização do país. Os mentores da independência branca davam a Holden Roberto o território do antigo Reino do Congo e Savimbi ficava o caudilho de resto do país ao qual ele chamou a República Negra de Angola a Sul do Cuanza. Mas ele não passava de pretexto que justificava os avanços de Pretória.

Agostinho Neto, na entrevista ao “Diário de Notícias” fez esta declaração histórica, que faz parte da nossa memória com futuro:

“Eu sei que haverá muitas dificuldades para a realização das eleições, já que é uma operação complicadíssima, especialmente nas condições que estamos a viver. Após séculos de colonialismo e dezenas de anos de fascismo, em que a prática eleitoral não foi aplicada aqui em Angola, o nosso povo terá dificuldades em responder de uma maneira cabal às eleições. Haverá dificuldades também de carácter técnico. No entanto, penso que mesmo nessas condições e uma vez que todos concordamos, devemos fazer tudo para realizar as eleições. A meu ver, não é prudente chegarmos a este momento, quando ainda mal iniciamos a discussão sobre a lei eleitoral, quando ainda não aprovámos sequer uma lei fundamental, chegarmos à conclusão que não podemos efectuar as eleições. E as dúvidas que têm surgido ultimamente por causa dos conflitos, principalmente aqui em Luanda, não autorizam ninguém a dizer que as eleições são impossíveis. E é bom que se passe pelo teste das eleições para não continuarmos a viver esta dúvida sobre qual a tendência principal do povo angolano. Acho, portanto, que o trabalho dos Movimentos de Libertação, do Governo de Transição e de todo o povo, deve ser em prol da realização das eleições.”[11]

Depois desta declaração, os ministros e secretários de Estado da FNLA e da UNITA abandonaram o Governo de Transição, Savimbi foi para a cidade do Huambo preparar a independência da República Negra e Holden Roberto foi para Kinshasa onde preparou as forças armadas que logo a seguir invadiram Angola pela fronteira Norte. Um dos cabos de guerra ao seu serviço era o coronel Santos e Castro, que comandava os mercenários de várias nacionalidades. A CIA dispensou ao líder da FNLA numerosos assessores operacionais ou peritos em informações militares. Era uma força descomunal.

Face às invasões militares a Sul e Norte, Agostinho Neto decidiu pedir apoio a Cuba. Os primeiros militares cubanos, combatentes muito experimentados, ficaram instalados em Cabinda, Kifangondo e no Cuanza Norte. Os peritos cubanos rapidamente compreenderam que as forças invasoras eram de tal forma poderosas que não havia força suficiente para enfrentá-las. Eram necessários mais homens e equipamentos. Assim foi montada a Operação Carlota, sob a orientação directa de Fidel Castro e Agostinho Neto.

Três meses antes da Independência Nacional chegou ao teatro de operações a IX Brigada, formada na União Soviética e comandada por David Moisés “Ndozi”. Esta unidade especial era constituída por alguns dos melhores comandantes das FAPLA. As tropas invasoras encontraram no Panguila uma barreira de fogo intransponível e retiraram. Mas foram perseguidas até ao seu aniquilamento. Em Angola ficaram militares portugueses, peritos da CIA e mercenários de várias nacionalidades. Foram feitos prisioneiros em combate.

Agostinho Neto ordenou que todos fossem julgados num Tribunal Internacional em Luanda. O julgamento dos mercenários teve o condão de acabar com o mercenarismo em África, durante décadas. Holden e Savimbi perderam a guerra ao serem derrotados os seus mentores. Mas destruíram Angola e lançaram o Povo Angolano numa tragédia humanitária sem precedentes. Agostinho Neto perdoou-lhes e fez tudo para que se juntassem à Angola livre e independente, ajudando a construir, na unidade, a Pátria Angolana. Recusaram. Mas Holden depôs as armas. Savimbi alugou-as, sem disfarces, sem subterfúgios, ao regime racista de Pretória. Mas se Neto perdoou, nós temos também de perdoar. Sigamos o seu exemplo, para que o nosso presente seja justo e o futuro tenha valor. A memória desta sua declaração, tem muito valor:

“Com confiança e decisão, o Povo Angolano enfrentará as novas condições. Durante a longa noite colonial, o Povo Angolano aprendeu que é preciso bater sempre na exploração, venha ela donde vier, assuma ela a forma ou a cor que assumir.”

As tropas invasoras foram travadas em Kifangondo e depois desbaratadas em todo o Norte de Angola. Os sobreviventes refugiaram-se no então Zaire, hoje República Democrática do Congo. A coluna sul-africana reforçada pelo Esquadrão Chipenda foi travada no Ebo, Cuanza Sul, e no Luena, capital do Moxico.

Em Março de 1976, os karkamanos conseguiram tirar todos os homens e material de guerra do território nacional. Agostinho Neto tinha acabado de levar o MPLA e o Povo Angolano à mais extraordinária vitória da sua História. Quando no dia 11 de Novembro de 1975 proclamou em Luanda a Independência, conquistou um lugar de destaque na História Universal e confirmou ser para sempre, a primeira figura da política angolana e africana.
Agostinho Neto, no dia 10 de Novembro de 1975, às 23 horas, saiu com a família da sua casa do Futungo de Belas em direcção à Praça Primeiro de Maio, onde tinha sido montado o palanque para as cerimónias da Independência Nacional. A frente de Kifangondo continuava a ser flagelada pela artilharia inimiga. Havia tiroteio por todo o lado.

Num ponto do trajecto ficava um comité de acção do MPLA. Estava lá concentrada muita gente, fazendo a festa da independência. Uma forma de comemorar era disparar as armas para o ar. Quando íamos a passar, rebentou um tiroteio nutrido, com balas tracejantes, que passavam junto ao para-brisas do carro em que viajava o meu marido, aquele em que íamos a mãe Maria, minha mãe e eu, e o outro onde iam as nossas filhas. Foi um momento difícil.

Quando chegámos à Praça Primeiro de Maio a multidão concentrava-se à volta do palanque. Demos três voltas ao largo até encontrarmos um ponto que nos permitisse chegar ao palanque. Quando Agostinho Neto começou a ler a proclamação da Independência Nacional olhei para ele, para aquelas personalidades todas estrangeiras que vieram assistir ao acto, para os nossos camaradas, para a Mamã Maria, a minha mãe, as minhas filhas Irene e Leda, pensei no meu filho Mário Jorge, que estava nas aulas na Roménia e disse a mim mesma que todos os sacrifícios que fizemos, tinham valido a pena.

Logo a seguir à festa, voltámos para a nossa casa no Futungo de Belas e Agostinho Neto continuou a trabalhar. Passaram vários dias e uma ocasião, uma delegação do MPLA chegou ao seu gabinete. Iko Carreira disse-lhe: - Camarada presidente, esta delegação do MPLA vem pedir-lhe para ir ocupar o seu lugar no Palácio da Cidade Alta porque é lá o lugar do Chefe de Estado. Só nessa altura o meu marido foi trabalhar para o palácio.
Agostinho Neto tinha a noção exacta da importância dos Media na divulgação da luta do MPLA pela Independência Nacional. No período da guerrilha conseguiu levar grandes repórteres à Frente Norte e depois à Frente Leste. O livro que a Fundação Dr. António Agostinho Neto acaba de publicar com as fotos da guerrilha, de autoria de Augusta Conchiglia é prova dessa visão política do líder. Basil Davidson foi outro repórter que Neto mobilizou e fez reportagens notáveis nas zonas libertadas do Leste de Angola. Depois dessas visitas escreveu um livro notável intitulado Angola no Centro do Furacão. Pelo seu contributo na luta contra o colonialismo, o jornalista mobilizado por Neto para a luta do MPLA foi condecorado pelo Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, e pelo Presidente de Portugal, Jorge Sampaio.

Nos dias seguintes ao 25 de Abril, Agostinho Neto lançou o alerta: “temos de garantir que a Imprensa amplifique a nossa luta.” No interior, Hermínio Escórcio iniciou uma campanha bem-sucedida de mobilização de profissionais da comunicação social. O ambiente era hostil. O maior jornal diário, “Província de Angola” tinha como um dos proprietários e director Rui Correia de Freitas, defensor da independência branca e apoiante da FNLA. O quotidiano matutino “Comércio de Luanda” pertencia ao magnata português António Champalimaud. A revista “Notícia”, a mais influente publicação angolana, era propriedade do multimilionário português Manoel Vinhas, também dono da fábrica de cervejas Cuca. O quotidiano vespertino “Diário de Luanda” era propriedade do partido União Nacional, organização salazarista suporte ideológico do Estado Novo.

A Emissora Oficial de Angola pertencia ao Estado. O seu director foi demitido logo a seguir ao dia 25 de Abril de 1974, por ser considerado um agente activo do colonial-fascismo. Foi substituído por militares do MFA. O director era o comandante da Armada, Garrido Borges, e o seu adjunto era o capitão Alcântara de Melo. Mas eles estavam isolados num oceano de servidores do regime derrubado pelos Capitães de Abril. A hostilidade ao MPLA era notória. Os jornalistas do passado renderam-se a Savimbi e fizeram da UNITA “o movimento dos brancos”. O seu líder era vendido como o “muata da paz”.

Perante este panorama, jornalistas do MPLA propuseram a Correia Jesuíno, secretário da Informação do governo de Rosa Coutinho, que lhes fosse dada a oportunidade de mudarem os conteúdos comunicacionais da “Voz de Angola”, na época a rádio líder de audiências e que estava ao serviço da PIDE e da propaganda colonialista. A proposta foi aceite.

A “Voz de Angola” mudou do dia para a noite. A estação entrava em cadeia com a “Emissora Oficial de Angola” nos noticiários das 13 e das 20 horas. O edifício sonoro era exclusivamente de música popular angolana. Meia hora antes do noticiário das 13 horas existia uma rubrica que consistia em apelos de antigos guerrilheiros, que se entregaram ou foram capturados, no sentido de levarem os antigos companheiros de armas a que se rendessem. O mesmo acontecia uma hora antes do noticiário das 20 horas.

A nova equipa, uma hora antes do jornal das 13 horas da “Emissora Oficial de Angola”, lançou o programa A Voz Livre do Povo. O mesmo no jornal das 20 horas. O produtor e apresentador deste programa era Manuel Berenguel. O espaço radiofónico consistia em pôr no ar depoimentos de pessoas anónimas. Os registos magnéticos eram colhidos nos bairros, nas empresas, nas fábricas, nas ruas. O apresentador tinha uma voz bem colocada e as suas intervenções, entre cada registo magnético, eram empolgantes. O operador de som neste espaço era Artur Arriscado.

No final do jornal das 20 horas, a “Voz de Angola” emitia em directo o programa “Equipa” com o subtítulo “Contacto Popular”. A realização era de Artur Queiroz. A produção e apresentação de José Andrade “Zan” que construiu um edifício sonoro à base da Grande Música Negra e com a participação dos grandes artistas da música popular urbana da época. Na técnica estava Fernando Neves e Jofre Neto. Alguns dias depois os órgãos de comunicação social privados apontavam a estação emissora como a rádio dos comunistas do MPLA. Os esquadrões da morte cercaram as instalações, mas Rosa Coutinho mandou uma força de fuzileiros navais proteger os profissionais e os equipamentos.

A Rádio Eclésia, propriedade da Igreja, tinha alugado o tempo de antena com maiores audiências a realizadores e produtores independentes. Foi por aqui que os militantes do MPLA conseguiram fazer passar a mensagem do movimento e dar ampla divulgação ao discurso de Agostinho na Universidade de Dar-es-Salaam Quem É o Inimigo?Mas as pressões das forças económicas foram tais que em breve essas vozes foram silenciadas.

A cobertura jornalística do acordo de cessar-fogo na chana do Lunhameje foi notável. De Luanda deslocou-se um batalhão de jornalistas hostis ao MPLA. O comandante Garrido Borges e o capitão Alcântara Monteiro ordenaram que a reportagem da “Emissora Oficial de Angola” ficasse a cargo dos profissionais do programa “Contacto Popular”. A rádio pública fez uma voz de barragem e ninguém mais ouviu as outras mensagens. Foi emitida uma entrevista com o Presidente Agostinho Neto. E depois, ao longo da emissão, declarações de Lúcio Lara, Iko Carreira, Pedalé, Joaquim Kapangu, Monstro Imortal, Bolingô, Manuel Pedro Pacavira.

Com a delegação do MPLA estavam Mbeto Traça e Armando Guinapo, que fizeram a cobertura audiovisual do acontecimento. De Luanda foi para o Leste, credenciado como jornalista pelo Governo de Rosa Coutinho, Roberto de Almeida.

A Guerra de Luanda provocou a fuga de jornalistas e técnicos para Portugal. A “Emissora Oficial de Angola” estava com uma gritante falta de profissionais. O comandante Garrido Borges e o capitão Alcântara de Melo propuseram o encerramento da “Voz de Angola” e a importação dos seus técnicos e jornalistas para a rádio oficial. Em Julho de 1974 aconteceu a fusão. A “Agenda”, rubrica de maior audiência na Rádio angolana, foi importada para a grelha. Ainda hoje existe. Os jornais das 13 e 20 horas sofreram grandes alterações e tinham redacções próprias. O jornal das 13 era chefiado por Artur Queiroz, o das 20 por Manuel Rodrigues Vaz e as notícias intercalares da noite até ao fecho da emissão eram da responsabilidade de António Cardoso, o último preso político do MPLA a ser libertado do campo de concentração do Tarrafal. Estava ganha a batalha da informação porque a Rádio era o meio de comunicação mais poderoso e a informação era dirigida por militantes do movimento.

Agostinho Neto recomendou à direcção do MPLA que garantisse uma cobertura competente da cimeira de Mombaça. A “Emissora Oficial de Angola” garantiu essa competência. Mais uma vez foi erguida uma voz de barragem e a imprensa privada apenas destacou um enviado especial.

O génio político de Neto revelou-se em toda a sua extensão quando definiu, com Rui de Carvalho, os objectivos e as acções da cobertura mediática na Cimeira do Algarve. A “Emissora Oficial de Angola” enviou a seguinte equipa: Horácio da Fonseca, o profissional que com Luísa Fançony dirigia a programação da rádio, Artur Queiroz, chefe de redacção e editor do Jornal das 13, Francisco Simons a principal voz do jornal, e o operador de som Humberto Jorge. No Hotel D. João II estavam instalados os jornalistas. A equipa da emissora criou um estúdio no quarto de Humberto Jorge, donde eram emitidos, em directo, noticiários todas as horas certas e meias horas. Foi a primeira vez na rádio mundial que os noticiários ocuparam todo o tempo de antena.

Além das notícias foi criado um espaço de entrevista e três espaços de comentário. O jornalista Aquino de Bragança era o comentador residente. Os outros dois espaços eram preenchidos com opiniões de convidados. Um dos mais assíduos foi Sebastião Coelho, produtor independente do “Café da Noite” na antena da Rádio Eclésia e que viu os seus estúdios destruídos pelos esquadrões da morte da FNLA, conhecidos por Brigadas da Juventude Revolucionária (BJR). Por pouco escapou ao linchamento. Os fuzileiros navais de Rosa Coutinho salvaram-no in extremis.

O jornalista Rui de Carvalho tinha assento na delegação do MPLA e era ele a principal fonte das notícias. Os primeiros entrevistados foram Francisco da Costa Gomes, Presidente da República Portuguesa, Agostinho Neto, líder do MPLA e Jonas Savimbi, líder da UNITA. Holden Roberto, líder da FNLA, manifestou indisponibilidade para a entrevista sendo substituído por Hendrick Vaal Neto.

Logo após a assinatura do Acordo do Alvor, os militantes do MPLA estabeleceram contactos com os Media internacionais mais influentes e conseguiram mobilizar para Angola jornalistas experimentados. John Borrel, do “The Guardian”, Alberto Miguez, do jornal “El País” que acabava de nascer, mas também correspondente do “Vanguardia” de Barcelona, Luís Alberto Ferreira da “RTP”, Eugénio Alves, “Diário de Lisboa”, Cáceres Monteiro do semanário “O Jornal” e muitos outros responderam ao apelo e até à Independência Nacional passaram por Angola inúmeras vezes, durante o processo de transição.

A Agência Polaca de Notícias “PAP” enviou para Angola Ryszard Kapuscinski. A Prensa Latina Miguel Roa e Eloy Concepción Perez. Miguel Arraes, em Setembro de 1974, lançou em Buenos Aires os Cadernos do Terceiro Mundo. Foi a Angola e garantiu espaço noticioso nos jornais “La Cronica” do Perú, “Excelsior” do México e toda a rede que apoiava os seus “cadernos”. António Cardoso e Artur Queiroz enviavam diariamente noticiário para esses Media internacionais.

Quando a coluna das tropas sul-africanas invadiu o sul de Angola e avançou para a Huíla, Benguela, Cuanza Sul, Huambo e Moxico, os correspondentes da PAP e da RTP deram a notícia para o mundo. Luís Alberto Ferreira foi chamado a Lisboa e o canal público da televisão portuguesa riscou Angola dos seus noticiários. Mas ninguém conseguiu lançar um cerco mediático a Angola e ao MPLA. Esta foi uma das mais importantes vitórias do MPLA e do Povo Angolano.

Agostinho Neto percebeu que só com a Rádio não era possível responder a todos os desafios que se colocavam à luta do Povo Angolano na fase de transição. E deu ordens directas para que o “Diário de Luanda” fosse o órgão privilegiado na Imprensa. Desde então, todas as grandes batalhas que conduziram à Independência Nacional foram cobertas pelos repórteres do jornal. Mais ninguém cobriu esses acontecimentos heroicos.

Nas oficinas gráficas do “Diário de Luanda” era impresso o semanário “Victória Certa”, órgão oficial do MPLA. Foi criado por Rui de Carvalho e o seu chefe de redacção era o decano dos jornalistas angolanos: Bobela Mota. Os redactores eram jornalistas do “Diário de Luanda”. Um marco inesquecível na Imprensa Livre de Angola.
Este órgão de comunicação social foi tomado de assalto pelos fraccionistas de 27 de Maio e acabou. Mas nas suas páginas podemos encontrar as mais valiosas memórias de um período que viabilizou o presente e deu a dimensão da liberdade ao futuro dos angolanos. Ninguém valorizou mais a comunicação social do que Agostinho Neto.
A dimensão cultural do líder do MPLA foi uma mais valia durante a luta armada, na Angola da transição e após a independência nacional. Agostinho Neto apoiou os artistas e escritores, criou condições para que a Cultura estivesse sempre na primeira linha das políticas do Estado e do partido. Memória valiosa para o nosso futuro é a sua visão sobre as actividades culturais:

“A cultura evolui com as condições materiais e a cada etapa, corresponde a uma forma de expressão e de concretização dos actos culturais. A cultura resulta da situação material e do estado do seu desenvolvimento social. No contexto angolano, a expressão cultural resulta senão de cópia e, por enquanto, pelo menos do resultado de uma aculturação secular, pretendendo reflectir a evolução material do povo, que de independente se tornou submisso e completamente dependente para voltar a ser independente em novas condições. Há que recorrer de novo à nossa realidade, sem chauvinismos, e sem renunciarmos à nossa vocação universalista.”[12]

No período de transição, dezenas de artistas plásticos encheram Luanda e as grandes cidades angolanas de murais que difundiam as palavras de ordem de Agostinho Neto. A sua proclamação do Poder Popular foi acompanhada de artísticos cartazes. Os murais foram apagados ao longo dos anos por quem queria apagar também a memória do futuro expressa em Agostinho Neto. Só ficou aquele que ocupa os muros do Hospital Militar. Mas também ficaram as memórias.

Agostinho Neto viu desmoronar-se todo o tecido económico de Angola. Assistiu impotente à destruição, por angolanos, dos centros de produção e circuitos de produção: Mas não desistiu. E uma das suas mais importantes acções no domínio económico foi o lançamento do Kwanza como moeda nacional. Mas também obrigou os parceiros na exploração do petróleo a pagarem um preço justo pelo barril. Neto e Dilolwa estudaram o modelo económico e concluíram que para ser viável, as receitas petrolíferas tinham que pagar todas as despesas do Orçamento Geral do Estado. Assim se fez. Que ninguém desfaça o que foi bem feito.
A guerra tomou formas avassaladoras e chegou a todo o país. Os angolanos bateram-se heroicamente pela soberania nacional e a integridade territorial. Em Março de 1976 saíram de Angola os últimos invasores sul-africanos. Foi uma vitória estrondosa.

O fraccionismo liderado por “Monstro Imortal”, Nito Alves e José Van-Dúnem tomou o lugar das forças invasoras e dos agentes do colonialismo português. Agostinho Neto pediu aos seus camaradas que se dedicassem à organização do partido, para ele poder dar mais atenção às questões do Estado. Um dia convocou os dirigentes conotados com o fraccionismo para um jantar. Só não esteve presente Jacob Caetano “Monstro Imortal” porque ninguém sabia das suas actividades.

Agostinho Neto foi directo ao assunto:

- Quais são as reivindicações dos camaradas? Querem que eu saia da liderança do Estado e do MPLA?

Todos disseram que estavam a seu lado e pediram a Agostinho Neto para continuar. Juraram fidelidade ao líder. Pareceram-me sinceros, mas a realidade não confirmou a aparência. A ambição desmedida e o oportunismo pesaram mais do que a lealdade que todos os militantes deviam ao líder.
O meu marido ficou chocado com aquela declaração pública de Nito Alves, em que afirmou: - Angola só será livre quando os brancos e os mulatos limparem o lixo das ruas, como os negros.

Eu aproveitei uma campanha de limpeza lançada pelo Comissário Provincial de Luanda, Francisco Romão, para integrar uma brigada de limpeza das ruas de Luanda. Quis mostrar a esses racistas que estavam errados. Mas continuaram as suas actividades fraccionistas até ao extremo de desencadearem o golpe de estado e provocarem toda aquela tragédia.

O golpe de estado organizado e executado por Monstro Imortal, Bakalof, Nito Alves, José Van-Dúnem e outros membros da direcção política e operacional da intentona só não pôs fim à Independência Nacional e à integridade territorial porque, mais uma vez, os angolanos, na hora da verdade, se colocaram ao lado do MPLA e de Agostinho Neto.

Os golpistas decapitaram a cúpula das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), torturaram e assassinaram dirigentes políticos de enorme valia, como o ministro das Finanças, Saidy Mingas, o diplomata Garcia Neto, os comandantes Nzaji, Dangereux, Eurico Gonçalves, Bula, o director dos serviços de informações, Hélder Neto, e mobilizaram para a sua aventura milhares de luandenses que foram usados como escudos humanos. Alguns pagaram, com a vida, a irresponsabilidade dos golpistas.

O golpe de estado de 27 de Maio de 1977 era parte da “Operação Cobra77” também conhecida por “Operação Natal em Angola”, financiada pelas grandes potências ocidentais e organizada pela CIA. O jornal britânico Sunday Times revelou em primeira mão os preparativos para uma intervenção armada em Angola, por terra, ar e mar. Segundo o plano operacional, tropas zairenses invadiam Cabinda e áreas estratégicas da fronteira norte e nordeste, sobretudo nas minas de diamantes da Lunda. As tropas terrestres e a aviação da África do Sul ocupavam o sul e sudeste. Uma força naval desembarcaria em vários pontos da costa, a norte e sul de Luanda.

Os comandantes da “Operação Cobra77” eram veteranos de guerra dos EUA e um oficial superior francês. Agostinho Neto e o seu Governo ficariam cercados em Luanda e teriam de negociar com os invasores. Jonas Savimbi e Holden Roberto seriam depois colocados no poder. O velho plano de Nixon, Mobutu e Spínola, tratado da Ilha do Sal pouco tempo depois do 25 de Abril de 1974 continuava no topo da agenda, ainda que nesta fase Holden tivesse sido despromovido e Savimbi guindado à liderança.

Termino com uma memória de mim. Um poema que na dor, no luto e na saudade escrevi ao meu marido:

“Ah! Agostinho Neto/que nos venha um canto/que faça irromper todas as fontes/e se juntem num só caudal./
Que esse canto/seja o canto da Terra//a circular em todas as raízes/e a germinar em todas as árvores./
Que seja/o oxigénio vivificador/que alimente a combustão/dos nossos corações tão tíbios.
Ah! Agostinho Neto/envia ainda para nós/a chama ígnea/do teu amor por Angola/e sustem os que lutam por ela!”[13]

Agradeço a vossa atenção.

Maria Eugénia Neto

Presidente do Conselho de Fundadores da Fundação Dr. António Agostinho Neto

Centro de Conferências de Belas, Futungo II

Luanda, 4 a 6 de Dezembro de 2019

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

1. Neto, Agostinho, Sagrada Esperança, Não me peças sorrisos, 1949.

2. Neto, Agostinho, Sagrada Esperança, Adeus à hora da largada.

3. Neto, Agostinho, Sagrada Esperança, Quitandeira.

4. Neto, Agostinho, Sagrada Esperança, Velho Negro, 1948.

5. Neto, Agostinho, Sagrada Esperança, Comboio Africano.

6. Neto, Agostinho, Sagrada Esperança, Desfile de Sombras, 1948.

7. Neto, Eugénia, O Soar dos Quissanges, Em Setembro, 1998.

8. Mensagem de Ano Novo do Presidente Agostinho Neto ao Povo Angolano, 1 de Janeiro de 1967, Fundação Dr. António Agostinho Neto.

9. “Quem É o Inimigo? Qual é o Nosso Objectivo?”, Agostinho Neto, Edições Maria da Fonte, 1974.

10. Discurso proferido por Agostinho Neto no Acordo do Alvor, 15 de Janeiro de 1975, Fundação Dr. António Agostinho Neto.

11. Entrevista de Agostinho Neto ao Diário de Notícias, Portugal, Maio de 1975, Artur Queiroz.

12. Discurso de Agostinho Neto na proclamação da União dos Escritores Angolanos, 10 de Novembro de 1975, Fundação Dr. António Agostinho Neto.

13. “ANGOLA, do Alvor a Lusaka”, Pedro Pezarat Correia. Edição da Hugin, 1996 (com prefácio de Melo Antunes, coordenador do MFA e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Português).

14. “A Via Agreste da Liberdade: Angola, do 25 de Abril ao 11 de Novembro”, Artur Queiroz, prefácio do Almirante Rosa Coutinho. Edição da Ulmeiro, Lisboa,1978.

15. Entrevista de Agostinho Neto, Artur Queiroz. Jornal Diário de Notícias. Lisboa, Março de 1975.

16. “Angola no Centro do Furacão”, Basil Davidson. Editora Compasso do Tempo, Lisboa, 1979.

17. “Angola e o Movimento Revolucionário dos Capitães de Abril em Portugal: Memórias, 1974-1976”, Manuel Pedro Pacavira. Edição Mayamba, Luanda, 2014.

18. “O Desafio Africano”, José Carlos Venâncio. Editora Veja, Lisboa, 1997.

19. “Jogos Africanos”, Jaime Nogueira Pinto. Editora A Esfera dos Livros, Lisboa, 2008.

alt

Notas de rodapé

[1] Agostinho Neto, Mensagem de Ano Novo ao Povo Angolano, 1 de Janeiro de 1967.

[2] Não me peças sorrisos, in Sagrada Esperança, 1949.

[3] Discurso Quem É o Inimigo? Qual É o Objectivo? na Universidade de Dar-es-Salaam, Tanzânia, Fevereiro 1974.

[4] Adeus à hora da largada, in Sagrada Esperança.

[5] Quitandeira, in Sagrada Esperança.

[6] Velho Negro, in Sagrada Esperança, 1948.

[7] Comboio Africano in Sagrada Esperança.

[8] Desfile de Sombras in Sagrada Esperança, 1948.

[9] Discurso de Agostinho Neto no Acordo do Alvor, 15.1.1975.

[10] Entrevista de Agostinho Neto ao Diário de Notícias, Artur Queiroz, Lisboa, Maio de 1975.

[11] Entrevista de Agostinho Neto ao Diário de Notícias, Artur Queiroz, Lisboa, Maio de 1975.

[12] Discurso de Agostinho Neto na proclamação da União dos Escritores Angolanos, 10 de Novembro de 1975.

[13] Eugénia Neto, Em Setembro, in Soar dos Quissanges, 2 de Agosto de 1998.