História Contemporânea de Angola em Perigo

VIGARISTAS DE COLARINHO BRANCO
História Contemporânea de Angola em Perigo
ARTUR QUEIROZ
A História Contemporânea de Angola está mal estudada, maltratada e sobretudo falsificada. Alguns historiadores pegam num átomo da realidade angolana e massacram-no até ele jurar arrepender-se e nunca mais voltar a pecar. Alguns são honestos e os seus trabalhos valiosos. Outros usam os factos históricos como arma de arremesso contra quem não simpatizam ou mesmo odeiam abertamente. O que aconteceu em Angola durante o século XX e sobretudo depois da década de 40 não foi ainda estudado de uma forma sistemática. Seria muito importante que fosse. Os angolanos e o mundo precisam de saber o que fomos e quanto fizemos, depois de 1950 até aos nossos dias.
O vazio existente permite o aparecimento de todos os oportunismos e falsificações, situação desastrosa para a afirmação dos angolanos como um Povo que em menos de meio século destruiu o império colonial português e derrotou o regime racista de Pretória. Ninguém fez mais pela honra da Humanidade e pela dignidade dos seres humanos.
As potências coloniais viverão para sempre com essa mancha ignominiosa. São os países que ocuparam e submeteram povos livres em África, na Ásia e nas Américas. Venderam seres humanos como se fossem animais de açougue. Cometeram genocídios dos quais nunca mais o Homem se libertará. Destruíram culturas e modelos sociais que roçavam a perfeição. Espezinharam a liberdade com uma ferocidade inaudita.
O racismo é uma arma poderosa ao serviço das antigas e actuais potências coloniais. Tem no regime de apartheid a sua forma de governação. Sempre existiu nas colónias de todas as latitudes. Nos EUA, país que nasceu com os valores da Revolução Francesa, existiu esse regime odioso até aos anos 60. Depois ficou de pé o modelo da África do Sul, como amostra e ao mesmo tempo ameaça permanente para todo o continente africano. Os angolanos derrubaram-no depois de uma guerra particularmente sangrenta e destrutiva, que começou em 1974 e acabou em 2002, ano em que Savimbi acabou a sua longa carreira de genocida.
Na década de 50 nasceu o MPLA, fruto da fusão de várias organizações nacionalistas tradicionais. Até Setembro de 1974, conduziu a luta armada de libertação nacional. Venceu todos os obstáculos militares: tropas portuguesas, tropas da FNLA, tropas da UNITA e as unidades especiais constituídas por angolanos que abandonaram a guerrilha, os TE, GE e Flechas, estes últimos criados pela PIDE/DGS e alimentados pela UNITA, quando Savimbi alugou as suas armas ao regime colonialista português.
O MPLA, fruto das suas retumbantes vitórias na Frente Norte e na Frente Leste, tornou-se naturalmente a vanguarda revolucionária do Povo Angolano. Em finais dos anos 60, a FNLA estava definhada e quase morta. A UNITA alugou as armas aos colonialistas até ao 25 de Abril de 1974 e ao regime racista de Pretória, depois da Independência Nacional. A coerência do MPLA deu frutos: Nunca uma organização política teve tanto apoio popular.
O caminho vitorioso do movimento tinha de ser travado a todo o custo, pelas grandes potências. E pelo caminho surgiram dissidências, deserções, golpes mais ou menos armados, enxurradas de mentiras e calúnias contra a direcção e o seu programa revolucionário. Agostinho Neto, o líder do MPLA que desenvolveu a luta armada até à vitória final, tantos anos depois da sua morte continua a ser vítima de calúnias soezes e mentiras chanceladas por filhotes do colonialismo ou os amargurados da queda do império que ia do Minho a Timor. Salazaristas ressabiados, racistas disfarçados de historiadores e órfãos dos bons velhos tempos coloniais deitam mão a todos os truques baixos e todas as trapaças, para denegrirem a figura do primeiro Presidente de Angola.
Carlos Pacheco é um desses seres. Diz-se historiador. Mas nunca explicou que estudos o motivam. Se estuda a História Contemporânea de Angola ele é um fracasso rotundo. Até agora só conseguiu escrever umas larachas com base nos arquivos da PIDE. Depoimentos obtidos a prisioneiros, quase sempre sob tortura e chantagem, para Pacheco são verdades indesmentíveis. Foi assim que ele pôs em causa o nascimento do MPLA e a sua existência.
O 4 de Fevereiro, para Pacheco não é a matriz moral da Revolução Angolana, é uma espécie de intriga de sacristia, quando muito de salão de rebitas. Calunia e insulta a memória do primeiro Presidente de Angola. Não quer saber da luta armada para nada. Não se conhece na sua obra uma só página sobre a Grande Insurreição. E a UPA/FNLA também tem o seu percurso e a sua história. Holden Roberto? Pacheco não sabe quem é.
A UNITA tem o cordão umbilical ligado aos generais do fascismo e ao ditador Marcelo Caetano. Depois cresceu à sombra do apartheid. Apesar de a sua direcção ter furado o bloqueio da comunidade internacional ao regime de Pretória, o movimento existe. Nzau Puna um dia disse-me que o problema de Savimbi eram as bebedeiras e a droga. Seria. E ainda que seja só aquilo que Jorge Valentim e Bela Malaquias descrevem nas suas obras, merece um livrinho do historiador Pacheco. Nada. Pelos vistos, este historiador é especialista em denegrir o 4 de Fevereiro, o MPLA e Agostinho Neto. Que estranho.
Carlos Pacheco num escrito publicado no Novo Jornal diz que organizou a defesa de Luanda com a Organização da Defesa Popular (ODP) nos meses anteriores à Independência Nacional. Não venha o historiador mentir! A defesa de Luanda foi organizada em Junho de 1974, mais de um ano antes, pelas comissões populares de bairro, pelas comissões de trabalhadores, pelos comités Amílcar Cabral e Henda. Pelos antigos prisioneiros do Tarrafal e São Nicolau, muitos dos quais tinham sido oficiais, sargentos ou praças das tropas portuguesas.
E sobretudo por aqueles jovens que estavam a cumprir o serviço militar obrigatório naquela altura. Face aos massacres dos esquadrões da morte, eles foram à Fortaleza de São Miguel, onde estava o comando das tropas portuguesas, e simbolicamente entregaram as fardas ao general Franco Pinheiro, o comandante em chefe. Mas ficaram com as armas. A partir desse dia, a população de Luanda que vivia nos musseques ficou defendida.
Carlos Pacheco também quer saber por onde andava este que o vai sempre desmascarar. Em Março de 1975 eu era chefe de redacção da Emissora Oficial de Angola e editava o jornal das 13. À noite integrava um grupo armado que patrulhava todo o território entre a Estrada da Brigada e o Bairro Operário, este defendido por combatentes da comissão popular do bairro Patrice Lumumba. O Sambizanga (com o Zangado) era defendido pelos combatentes da sua comissão.
O comandante Bula Matadi condecorou o historiador Pacheco. Deve ser por isso que os seus amigos nitistas o assassinaram no dia 27 de Maio de 1977. Mas o episódio do louvor traz água no bico. Depois de Rafael Marques e Agualusa, Pacheco está também a bater-se à condecoração. Que sejam todos condecorados, distinguidos, apaparicados. Mas não falsifiquem a História Contemporânea de Angola nem colaborem na segunda morte de Agostinho Neto. Consentir nisso, é o cúmulo da baixeza humana!
29.11.2019




