Augusta Conchiglia / Agostinho Neto, da guerrilha aos primeiros anos de independência
Ana de Sousa
Raymond Carver, um escritor norte-americano já falecido, um contista de que gosto muito, publicou um livro de contos que tem como título: De que falamos quando falamos de amor. É um título fácil pelo trocadilho mas também marcante pela sua ambiguidade tão intencional; não é fácil definir o amor e nem sequer é importante que o amor seja definido. Vou voltar a parafraseá-lo... de que falamos quando falamos de objectividade, e esse é um eterno debate do jornalismo. E esta é a primeira questão que me suscita o livro de Augusta Conchiglia, que é, claramente, uma obra muito comprometida.
Devo adiantar que, como jornalista, faz tempo que abdiquei da objectividade, optando, tanto quanto possível, pela honestidade intelectual ‒ não é a mesma coisa.
Posso adiantar, aqui no País onde se fala quotidianamente do combate à corrupção ‒ aliás, estou em crer que não tarda que o hino do MPLA possa ser alterado para incluir, com a métrica possível, “o combate à corrupção, impunidade, nepotismo e bajulação” ‒, que sou corruptível. E nada me corrompe mais do que o afecto. Gosto de política e de políticos ‒ o que não se deve confundir com gostar do poder ou de pessoas com poder. Gosto de pessoas e gosto de gostar de pessoas, e acho que as pessoas são inteiras quando se completam em lugares de luz e sombra ‒ e se repararem também estou a falar do livro. Acredito num jornalismo, não exactamente de causas, mas sei que, como jornalista, os meus textos são muito mais convincentes, fazem mais sentido, quando estou a escrever sobre qualquer coisa em que acredito, porque, como partilhou Hannah Arendt, o que não é possível é não estar engajado, em todos os domínios da nossa acção. Logo, este é o livro de uma repórter fotográfica, engajada com a esquerda italiana e com a autodeterminação dos povos, no caso, o povo angolano, através do MPLA.
O que eu quero dizer com tudo isto é que este livro, esta obra, é um texto comprometido, profundamente comprometido ‒ e aqui a figura de Agostinho Neto é o pretexto para um profundo comprometimento com pessoas e com a luta de libertação. Não é um olhar apaixonado ‒ esse condiciona, tira energia, e a jornada que este livro começa por retratar não foi fácil: Augusta poupa-nos aos pormenores mais duros, percebe-se que a ideia de chegar a “Angola libertada” significava imenso em emoção e muito em coragem física ‒ é, no entanto, um olhar muito atento, curioso e terno, preocupado com os detalhes mesmo quando a fotografia é um todo.
Há uns tempos li um livro de Arturo Pérez-Reverte (O Pintor de Batalhas). Tenho uma vaga memória da história, mas sei que tinha tudo que ver com uma fotografia, o olhar de um homem, um bósnio, que veio ao encontro do homem que o fotografou, e que é também uma história de amor de dois repórteres fotográficos da guerra da Bósnia. A determinada altura, o escritor descreve como é fotografar em zonas de conflito, como é fotografar cadáveres ou olhares que vêem cadáveres, e lembrei-me desse livro quando lia mas, sobretudo, quando via este livro. Segundo a descrição de Pérez-Reverte, o fotógrafo fica completamente alheado de tudo o que o rodeia; a realidade passa a ser só o que vê através da lente da câmara, e aí tudo se resume a uma centelha: captar essa centelha é o que faz de uma fotografia uma fotografia. E este é um livro feito dessas fotografias.
Destaco logo as primeiras páginas, as fotografias com as filhas, os sorrisos com aquela inocência malandra de Leda e de Irene Alexandra, enquanto o pai, provavelmente, discutia o futuro de uma nação.
E isso leva-me aonde quero chegar: o lugar dado às mulheres neste livro ‒ ou, se quisermos, na História de Angola através deste livro ‒ é imenso e é geralmente belo; as mulheres retratadas são todas bonitas, todas.
Também Augusta se coloca à frente da câmara, não com a exuberância de Lee Miller ‒ modelo fotografada e fotógrafa que foi, além de amante, a musa de Man Ray, repórter de guerra. Chegou a Londres quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial e faz o seu primeiro livro de fotografias da cidade em estado de guerra. Augusta partilha com Miller fotografias sobre como as mulheres viveram a guerra e foram afectadas por ela, no caso, como as mulheres viveram o maquise se formaram e transformaram nessa, como gosto de lhe chamar, “Avalon” angolana, lugar fundador da nação.
Devo acrescentar, mas creio que Augusta e muitos de nós sabemos, que os conflitos e a guerra têm sido uma das áreas mais desenvolvidas nos estudos sobre fotografia na última década.
“Muitas das práticas artísticas e fotográficas contemporâneas surgem como uma reflexão e um modo de activismo sobre o mundo em que vivemos, ajudando a pôr em causa uma história tradicional desprovida de instrumentos para a analisar. Não é por acaso que a arte contemporânea, tal como a fotografia têm sido cada vez mais interpeladas por uma variedade de disciplinas que vai da filosofia à ciência política, à teoria feminista, à cultura visual”, escreveu, não há muito tempo, Filipa Lowndes Vicente, a académica e minha colega de curso, investigadora do ICS (Instituto de Ciências Sociais), de Lisboa, em áreas muito marcadas por abordagens transnacionais e transcoloniais.
E também não por acaso que vos trago para aqui, para este terreno, enfim, mais feminino ou de leitura mais feminista; trago-vos porque olho para esta obra como uma obra onde um homem foi o pretexto para uma mulher nos dar um olhar intensamente feminino, não só da guerrilha mas, e muito, da história de Agostinho Neto. Sabemos a importância dos “camaradas” da vida de um dos fundadores do MPLA, o seu terceiro presidente e o primeiro Presidente de Angola livre. O que vos proponho, agora, é outra reflexão: escrever também a vida de Neto através das mulheres, a começar com a Maria Eugénia.
Luanda, 21.6.2019




